Onerário

Sentir tudo de todas as maneiras,
Viver tudo de todos os lados,
Ser a mesma coisa de todos os modos possíveis ao mesmo tempo,
Realizar em si toda a humanidade de todos os momentos
Num só momento difuso, profuso, completo e longínquo.

Eu quero ser sempre aquilo com quem simpatizo,
Eu torno-me sempre, mais tarde ou mais cedo,
Aquilo com quem simpatizo, seja uma pedra ou uma ânsia,
Seja uma flor ou uma ideia abstrata,
Seja uma multidão ou um modo de compreender Deus.
E eu simpatizo com tudo, vivo de tudo em tudo.

Álvaro de Campos
Não sou nada. Nunca serei nada. Não posso querer ser nada. À parte disso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
Álvaro de Campos
Se você não consegue virar a página,
troque o livro.
Existem tantas histórias interessantes
esperando para serem lidas,
esperando para serem lindas.
Eu me chamo Antônio. 
Depois, lá pra tantas da madrugada, quis te perguntar qual o tamanho da sua dor por ser tão só. Tu me parecia feliz, eram três da manhã, tu sempre gostou da noite, sempre quis sair pelo mundo cantando sua música favorita até o sol aparecer. Você tinha um ar de felicidade e de amadurecimento, esse tempo longe nos fez bem. Acho que você deixou de ser quem gostaria e se tornou quem sempre foi. Mas eu quero saber mesmo é, quanto dói pra ser sozinho? Dói muito? Teu cachorro fugiu, você odeia gatos, semana passada, brigou com o seu melhor amigo e tá aqui, porque diz que sou a única coisa boa, no meio dessa cidade pequena e quente. Tu sempre foi autossuficiente. Autossuficiente demais, menina. Teu azedo estraga qualquer gostinho doce. Eu to feliz por te ver, juro. Mas me responde, qual o tamanho da tua dor por ser tão sozinha.
Você só fode comigo, Alice. 

Você me dói agudo. E isso é grave.

Eu disse zigue-zague amor, não apazigue

Você fomentou um desejo incontrolável de apaziguar.

Nada estava bom, nada ia de acordo com o que você vivia sonhando; aquela sensação de vazio te inundava, e você afundava como um navio despedaçando em meio ao oceano. Sei que pensa que eu não sabia, que eu não estava nem um pouco preocupada, e que todos tinham te deixado só nessa maré. Digo que, pelo contrário, muito me preocupei contigo. Fui inteiramente sua por tantos anos que dessa vez resolvi escapar da sua rede, porque essa vida já te rendeu muitos peixes. E mesmo assim, quando eu resolvi por fim me libertar, você voltou e atracou sua embarcação perto de mim, porque quem sabe eu não preferiria o conforto do seu barco ao nadar desenfreado, desgastante e solitário? Lá vinha você de novo, zigue-zagueando minha vida, com um ar de despreocupado, só para que eu não associasse a nenhum tipo de dependência. Ah! E ainda tinha o agravante: nesse tempo você tinha encontrado a fórmula para aplacar a sua tristeza, e ela incluía cabelos pretos e lábios cobertos por um batom vermelho. Foi uma surpresa e tanto, considerando que não era típico do seu feito. De qualquer forma, ainda vinha me procurar, enquanto eu enfrentava as frustrações com o copo cheio, os lábios dormentes, a maquiagem borrada, e promessas falsas de desconhecidos.

Sei que pode parecer hipócrita. Se eu fosse você, nesse exato momento contra-argumentaria que meu anestésico é um clichê de filmes americanos sobre adolescentes desesperados. Ora, não é inteiramente mentira, eu diria. A diferença entre nós é que eu sempre soube que não há um jeito certo de sair dessa. Digo, é uma força muito maior que nós e essa tal de “força de vontade”; o processo é lento, e principalmente, natural. É nisso que eu acredito, mas não nego que meus impulsos atenuantes tenham sido mais extremos que os seus. Só não posso concordar com a imaturidade de meus atos, ao passo que, querendo ou não, há um certo prazer em viver riscos e isso nada tem a ver com a maturidade ou vice-versa. Maturidade, para falar a verdade, é o que conquistei ao longo desses anos que vivi por minha conta e risco. Maturidade é saber cuidar de mim, saber enfrentar com coragem cada diversidade e, principalmente, ter opiniões melhor formuladas sobre o mundo ao redor. Atrevo-me a dizer que nesses três pontos já me garanti.

Sem mais rodeios, voltaremos para a tese inicial, em que se baseia todo o meu desabafo. Durante todo esse tempo acompanhei suas tentativas de apaziguar essa dor, e percebi que o seu padrão é o pior de todos. Vejamos bem: eu sempre tive os meus amigos e a bebida, e isso bastava; por outro lado, você tinha ela. Ela, no sentido mais geral que o pronome pode alcançar, se é que me entende. Gostaria muito de poder entrar na sua mente para entender essa relação de subordinação. Você sempre precisou de alguém para te fazer melhor, alguém que dissesse que tudo iria ficar bem, alguém que te lembrasse que você vale à pena. Fujo das hipocrisias, não estou dizendo que em alguns momentos também fui assim; claro que fui, todos fomos como você. Mas em algum instante percebi que era inútil. Penso que entre todos os acontecimentos, algo ainda faz com que você esteja preso, e eu sinto muito por isso. Sei que a vida pode ser confusa e inusitada, de muitas e muitas maneiras, mas estamos aqui para enfrentá-la.

Despeço-me, de uma vez por todas, com um conselho que realmente espero que siga: tudo bem zigue-zaguear de vez em quando, mas não tente apaziguar o sofrimento, beba-o bruto, ou ficará cansado demais até te consumir por completo, e nem ela vai ser capaz de tirar-lhe do fundo.

Isabela Lamett

O amor é grande e cabe nesta janela sobre o mar. O mar é grande e cabe na cama e no colchão de amar. O amor é grande e cabe no breve espaço de beijar.
Carlos Drummond de Andrade (via oxigenio-dapalavra)