Onerário

Você me dói agudo. E isso é grave.

Eu disse zigue-zague amor, não apazigue

Você fomentou um desejo incontrolável de apaziguar.

Nada estava bom, nada ia de acordo com o que você vivia sonhando; aquela sensação de vazio te inundava, e você afundava como um navio despedaçando em meio ao oceano. Sei que pensa que eu não sabia, que eu não estava nem um pouco preocupada, e que todos tinham te deixado só nessa maré. Digo que, pelo contrário, muito me preocupei contigo. Fui inteiramente sua por tantos anos que dessa vez resolvi escapar da sua rede, porque essa vida já te rendeu muitos peixes. E mesmo assim, quando eu resolvi por fim me libertar, você voltou e atracou sua embarcação perto de mim, porque quem sabe eu não preferiria o conforto do seu barco ao nadar desenfreado, desgastante e solitário? Lá vinha você de novo, zigue-zagueando minha vida, com um ar de despreocupado, só para que eu não associasse a nenhum tipo de dependência. Ah! E ainda tinha o agravante: nesse tempo você tinha encontrado a fórmula para aplacar a sua tristeza, e ela incluía cabelos pretos e lábios cobertos por um batom vermelho. Foi uma surpresa e tanto, considerando que não era típico do seu feito. De qualquer forma, ainda vinha me procurar, enquanto eu enfrentava as frustrações com o copo cheio, os lábios dormentes, a maquiagem borrada, e promessas falsas de desconhecidos.

Sei que pode parecer hipócrita. Se eu fosse você, nesse exato momento contra-argumentaria que meu anestésico é um clichê de filmes americanos sobre adolescentes desesperados. Ora, não é inteiramente mentira, eu diria. A diferença entre nós é que eu sempre soube que não há um jeito certo de sair dessa. Digo, é uma força muito maior que nós e essa tal de “força de vontade”; o processo é lento, e principalmente, natural. É nisso que eu acredito, mas não nego que meus impulsos atenuantes tenham sido mais extremos que os seus. Só não posso concordar com a imaturidade de meus atos, ao passo que, querendo ou não, há um certo prazer em viver riscos e isso nada tem a ver com a maturidade ou vice-versa. Maturidade, para falar a verdade, é o que conquistei ao longo desses anos que vivi por minha conta e risco. Maturidade é saber cuidar de mim, saber enfrentar com coragem cada diversidade e, principalmente, ter opiniões melhor formuladas sobre o mundo ao redor. Atrevo-me a dizer que nesses três pontos já me garanti.

Sem mais rodeios, voltaremos para a tese inicial, em que se baseia todo o meu desabafo. Durante todo esse tempo acompanhei suas tentativas de apaziguar essa dor, e percebi que o seu padrão é o pior de todos. Vejamos bem: eu sempre tive os meus amigos e a bebida, e isso bastava; por outro lado, você tinha ela. Ela, no sentido mais geral que o pronome pode alcançar, se é que me entende. Gostaria muito de poder entrar na sua mente para entender essa relação de subordinação. Você sempre precisou de alguém para te fazer melhor, alguém que dissesse que tudo iria ficar bem, alguém que te lembrasse que você vale à pena. Fujo das hipocrisias, não estou dizendo que em alguns momentos também fui assim; claro que fui, todos fomos como você. Mas em algum instante percebi que era inútil. Penso que entre todos os acontecimentos, algo ainda faz com que você esteja preso, e eu sinto muito por isso. Sei que a vida pode ser confusa e inusitada, de muitas e muitas maneiras, mas estamos aqui para enfrentá-la.

Despeço-me, de uma vez por todas, com um conselho que realmente espero que siga: tudo bem zigue-zaguear de vez em quando, mas não tente apaziguar o sofrimento, beba-o bruto, ou ficará cansado demais até te consumir por completo, e nem ela vai ser capaz de tirar-lhe do fundo.

Isabela Lamett

O amor é grande e cabe nesta janela sobre o mar. O mar é grande e cabe na cama e no colchão de amar. O amor é grande e cabe no breve espaço de beijar.
Carlos Drummond de Andrade (via oxigenio-dapalavra)
Sintonize seu rádio

Eu sei que no momento existem bastantes interferências na transmissão, mas espero que me ouça ou que alguém lhe anuncie a notícia. Esse chiado é quase incompreensível e vem de uma parte de minha mente. O problema é justamente quando faço a tradução da mente para que o corpo transmita. É pedir demais ao meu corpo. A maior parte da mensagem se perde em cada átomo que ela atravessa até encontrar os meus lábios e chegar aos seus ouvidos. Quero dizer que nessa noite escura não quero encontrar a solidão. Socorro! Peço perdão, algumas coisas saem fora de ordem mas… encontre-me porque acho que me perdi dentro da minha própria vida. Socorro. Não é um grito de apelo, na verdade não entendo esse chamado que vem de dentro de mim. Socorro. Não há o que falar, aqui encerro a transmissão.

Nossos caminhos se descruzaram, desencontraram para nunca mais se encontrarem (espero). Achar um novo rumo foi natural, não te achar mais na praça de alimentação do Shopping pensando o quão bom seria sua presença foi ótimo. Não rir das suas piadas, nem me irritar com as suas dores? Perfeito. Eu não queria, não queria te perder. Não pelo peso em minha vida, mas, depois de tudo, eu ainda estava ali, pra que recuar? Não fazia sentido. Mal sabia eu que seria tão natural o teu recuar, a substituição de nós mesmos que eu sequer sentiria, e quando lembrasse, estaria fora do alcance das minhas mãos e no conforto de mim, não faz sentido correr. Lembrar dos passos teus se tornaram barulhos distantes, fora do alcance dos ouvidos, são suposições do que fazes fora do meu campo visual, fora de mim. Então, meu bem, não se toca mais a música que me dedicou, não se toca no passado, nos nossos nomes, nas escritas passadas, nas lembranças remendadas, nos planos, nas promessas, nos “combinados”, nas juras de dedinho, nas festas que eu nunca fui, no meu aniversário que você nunca veio, no beijo que você nunca me deu, na foto que nunca tiramos, nos sorrisos frente a frente que nunca vimos, nos olhares trocados que nunca trocamos, na batida na tua porta que nunca aconteceu, na visita ao teu colégio que eu nunca fiz, no teu amor tão irreal. O que aconteceu é pequeno, dois anos? Tão pouco! Então esquece, esquece de mim, da tua parte que você despejou em mim, esquece de nós se é que essa tal coisa já existiu. Sou teu passado, pedaço remendado até mal jogado na tua história, segue em frente que atrás ficou gente.
O começo de nós, depois do nosso fim.

sensibilista:

caostrofóbico:

quando o caos

implode
e milhões de cacos
eclodem
por dentro
todos
apertadamente
espalhados

palavra muda

se você tem foco
nunca faltará palavras
talvez falte coragem
falo isso em causa própria
minha auto-critica me cala